A VIDA EM PONTO CRUZ CONTINUA Tramas do silêncio - Bebel Ritzmann
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A Vida em Ponto e Cruz Continua
Tramas do silêncio
Bebel Ritzmann
Meu avô era homem, daqueles de cuspo estendido, que, se via mulher bonita, já soltava, de pronto, galanteio e assobio comprido. Quando a face o aprouvera, guinava logo o pescoço pra admirar as protuberâncias traseiras. Ê, vida boa!
Quando vovô ainda era encarnado, nos idos de 1970, eu era petitica, já agarrada no seu chicote de estalo e suas andanças de quintal. Macacão azul, cheio de ferramenta pendurada, chapéu de palha, sapato velho e aquele cantarolar em assobio que só dele era. Até hoje me pego, de vez em quando, arriscando um assobio igualzinho. Lembrança de vovô. E pensar que foi parar lá, naquele banhado, junto com tanto malmequer de brejo...
Era dia comum, desses de arroz e feijão, sopa de noite. Sentado na grama, arrancando mato com uma faquinha de cabo enrolado de fita isolante preta, tirou o chapéu e cumprimentou o jardineiro do casarão ao lado:
— Viva!
E engataram uma fiada. Eu, no balanço de corda, pendurado nos altos galhos da pereira, balangava de lá pra cá e escutava a prosa:
— Quanto tá cobrando pra tirar o mato e ajeitar o jardim? — gritou, suando em bica e tirando um lenço do bolso, tão molhado que nem dava mais conta da testa.
— Ah, meu amigo, cobro baratinho... Aqui a patroa me dá tudo! — disse, rindo por dentro.
O jardineiro recolocou o boné e voltou a tirar os matinhos. Eu dei um pulo, um saltão! Mas a tábuazinha do assento veio junto, enroscou na minha bermuda, voou alto e... tum!
Bateu bem no cocoruto da minha cabeça.
Sentada no chão, com a mãozinha na testa, abri o berreiro. Nenhuma lágrima, mas grito não faltou, até vovó sair da cozinha, com as mãos sujas de massa, querendo saber do fuzuê:
— Os dois! Levantem já do chão, vão lavar as mãos e o rosto, que o almoço já tá na mesa!
Nos olhamos, em silêncio. Eu e vovô.
Ele piscou pra mim.
Fomos.
A VIDA EM PONTO CRUZ CONTINUA
Bebel Ritzmann
A casa da Vovó era grande, com o terreno em descaída pro rio. Tinha galinha solta no quintal, dois porcos no chiqueiro, e aquele cheiro de mato molhado que não sai da lembrança. Eu, sempre levada, gostava era de brincar com os porcos. Voltava toda lambuzada de lama, rindo que só.
Mas o que eu adorava mesmo era andar pelo terreiro com Vovô, ele mexendo num matinho aqui, ajeitando uma árvore de fruta ali, como quem conversa com as plantas.
Um dia, eu tava tão suja, mas tão suja, que até a sombra se afastava. E mamãe já estava pra chegar do serviço. Entrei na casa pé ante pé, na pontinha dos dedos, pra ir direto me lavar sem ela ver.
Mas bem que Deus quis que eu ouvisse. Uma conversa baixinha veio do quarto da frente. Fiquei na espreita, só com um olho na fresta da porta. Era Vovó e Nhá Cezira, as duas na tricotagem. A agulha corria, mas era a língua que tecia coisa fina.
Estiquei as orelha até onde deu. Uma marca de nascença no pescoço? Rapaz forte, bonito? E o tom era de segredo, daqueles que ninguém devia saber.
Gravei aquilo na cabeça, mesmo sem entender. Mas pra mim virou mistério. Mistério bom de carregar - desses que a gente sente que tem que descobrir.
Anos depois, numa das visita à Pai de Todos os Santos, fui com Vovô no barbeiro, Seu Noel. Enquanto as mulheres se derretiam na carolagem da igreja, a barbearia era o terreiro dos homens, cheinhos de causos, riso e fumaça de fumo.
Seu Noel era um negro alto, quase dois metros de gente, sorridente, língua solta, mão certeira com a navalha. Estava ali, às costa do Vovô, ajeitando o cabelo. E o ajudante dele, Leleco, um piá novo, lavava o cabelo de outro rapaz numa bacia com uma mangueirinha. Coisa moderna que eu nunca tinha visto.
O moço sentou na cadeira do lado, de costas pra mim. E foi quando Leleco enxugou o cabelo dele, que eu vi - com esses olho que a terra há de comer - uma marca, bem no pescoço. Foi rápido. Cabelo logo caiu por cima e escondeu de novo.
Mas eu vi. E soube. Sabia quem era.
Só não sabia se podia falar. Aquilo era segredo de gente grande, e eu nem devia ter escutado atrás da porta.
Fiquei foi com aquilo entalado. Um saber que pesava no peito, mas que não se dizia. Um silêncio que me fez crescer sem resposta, só com pergunta.
E com o mistério de um moço que carregava marca no corpo... e destino no nome.
Transcritos do livro A VIDA EM PONTO CRUZ CONTADO - Tramas do silêncio. Autora Belbel Ritzmann. Páginas 19/20 e 87/89. Curitiba. NCA Comunicação e Editora / Livros Legais 2025.






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