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A GAROTA QUE ME FAZ SONHAR | RAIMUNDO COLARES RIBEIRO

LIVROS & ESCRITORES

A pausa para o almoço, que durou um pouco menos de uma hora, a Kátia utilizou-a para ir até a casa da sua mãe Lucelina, com quem morava, enquanto eu fiquei mergulhado em oceanos de pensamentos e recordações. A Dona Leica havia caprichado no pirarucu a casaca e na sobremesa de sorvete de cupuaçu.


Apaixonado pela música, creio que ela está profundamente ligada à minha vida e, por isso, deixa-me calmo, revigorado e feliz. Na verdade, sinto um bem-estar indescritível. É bem provável que eu tenha aprendido a gostar de música, desde criança, com o trabalho desenvolvido pelo meu pai, no seu comércio, que, às vezes, funcionava como bar, com uma geladeira que não gelava muito. Operava a querosene. À noite, após a energia elétrica ser desligada na usina pública, às 19 horas, e a cidade ficar à luz de luar, entrava em ação o lampião Aladdim, de alumínio, também a querosene.


Em determinada ocasião, papai inaugurou um salão de festas de nome Vitória-Régia. Eu devia estar com a idade de 6 anos.

Nesse tempo, em Tefé, ainda não existiam eletrolas modernas com alto-falantes potentes. O som da pequena eletrola, que funcionava a pilhas alcalinas e tocava nas rotações 33, 45 e 98, era amplificado com as cornetas do sistema de alto-falantes da Voz Agá-Erre, que ficavam posicionadas dentro do salão, em local estratégico, para não prejudicar o trânsito dos seus frequentadores. O amplificador acomodava doze pilhas grandes, distribuídas em três suportes iguais.


Papai também se utilizava de um pequeno gravador portátil, cujas fitas em carretel acomodavam muitas músicas. Havia, entre os carretéis, um com músicas carnavalescas que ele mandou gravar durante um baile de carnaval realizado no Humaitá Atlético Clube. A atração era uma banda de metal que veio de Manaus. Essa fita tornou-se bastante solicitada em momentos festivos. No encerramento do programa A MÚSICA DO SEU CORAÇÃO, esse carretel musical foi executado e todos se lembraram dos bons tempos do Humaitá, famoso em toda a região do Solimões pelas festas glamorosas que realizava.


Ao perceber que seu filho gostava de ouvir músicas, minha mãe presenteou-me com uma eletrola Nivico, composta por toca discos, toca fitas, gravador, rádio e, ainda, mesa de som e quatro alto-falantes. Na época, eu tinha 15 anos. A princípio, a Nivico ficou na Lanchonete Espírito Santo, no mercado público, onde eu a ajudava, das 4 às 6 horas da manhã. Alguns meses depois, foi levada para o Comércio Agá-Erre, administrado pelo meu pai. À tarde, depois do meio dia, quando retornava das aulas no Colégio Estadual, eu o auxiliava nas vendas, em horário que se estendia até às 18 horas. Em seguida, deixamos a Nivico na sala de estar do segundo piso do comércio, próximo ao meu quarto de dormir, lugar em que permanece até hoje.


Dona Leica, minha mãe, nasceu em Tefé, no interior do Amazonas, em 24 de agosto de 1929, logo depois que seus pais chegaram do Jenipaua, lugar no qual residiram por vários anos e onde trabalharam na agricultura, seguramente na

pequena lavoura, e, também, na pesca artesanal de subsistência.


Decorridos um ano e alguns meses do seu nascimento, Dona Leica foi batizada por Monsenhor Miguel Barrat, em 15 de outubro de 1930, tendo como padrinhos Eládio Castelo Branco e Mercedes Cavalier. Essas informações são fidedignas e estão demonstradas na Certidão de Batismo n.o 583, transcrita do Livro XI, folha 95, da Paróquia de Santa Teresa, Prelazia de Tefé. Sua mãe chamava-se Raimunda Serra Lima.


Embora seja do conhecimento da maioria dos tefeenses, custa nada lembrar que o Monsenhor Miguel Alfredo Barrat, nome ilustre e destacado nas narrativas históricas relativas a Tefé, foi Prefeito Apostólico, nos anos de 1926 e 1927. Não menos notável, o Sr. Eládio Castelo Branco esteve como Intendente (vereador) e Superintendente (prefeito), nas décadas de 1920 e 1930.


De Tefé, motivados pelo estado doentio do patriarca Manuel Crispim, que se acidentara ao cair de uma construção, no desempenho do seu ofício de carpintaria, transferiram-se para o Coracy, lugarejo aprazível localizado às margens do Rio Japurá.


Ainda muito jovem, em razão do falecimento dos pais e casamento dos seus três irmãos (Ismael, Antônio e Augusta), retornou de vez a Tefé, sede do Município, onde foi morar sob os auspícios da sua tia Biló, numa casa situada na Rua Coronel Francisco Rodrigues, atual Olavo Bilac, esquina com a Travessa Treze de Maio, hoje Travessa Bom Jesus.


Anos mais tarde, com o desejo e a obstinação excessiva em querer sair do analfabetismo, aliados aos dedicados ensinamentos do meu pai, minha mãe, sem nunca ter frequentado os bancos escolares, aprendeu a ler e a escrever. Também, graças a seus esforços e estudos, sabia resolver e solucionar os mais elementares problemas de matemática, envolvendo tão somente o básico da adição e da subtração, operações que muito lhe ajudaram durante toda sua vida

devotada ora ao comércio de gêneros alimentícios e estivas em geral, ora às atividades de venda de lanches e refeições.


Ao longo dos anos dedicados ao comércio, Dona Leica deixou conhecidos seu cafezinho, seu mingau de milho-verde (canjica), de milho-branco (mungunzá), de arroz, de banana madura, sua pamonha, seu beiju (tapioquinha), fritinhos de goma, refrescos de frutas naturais, seus sanduíches, todos, aliás, inegavelmente, da melhor qualidade e com preços mais barato, pois, tal como repetidamente afirmava, essa maneira de comercializar vinha a ser sua marca registrada.


Acordava sempre muito cedo, partindo de casa, todos os dias, geralmente às quatro horas da manhã, quando o brilho das estrelas ainda se sobressaía no clarão azul do céu. Caminhava com passos apressados em direção ao Mercado Municipal, onde estava localizado o seu ponto de venda, canteiro de sobrevivência e prosperidade, distante, mais ou menos, cento e cinquenta metros da nossa moradia, que ficava na Rua Olavo Bilac, esquina com a Travessa Bom Jesus, a mesma casa da sua tia Biló, comprada anos depois pelo meu pai. Por muitos e muitos anos, ela percorreu com invulgar satisfação esse trajeto, às vezes, até enfrentando chuvas torrenciais, ventos fortes, poeira de chão, friagem, escuridão. No entanto, minha mãe demonstrava estar continuamente muito feliz, cumprindo sua missão e ganhando seu dinheirinho.


O comércio, a profissão que minha mãe abraçava de verdade e que desempenhava com tanto carinho e entusiasmo, há anos apareceu em sua vida, antes mesmo de quando ainda não existia a atual Feira do Produtor Rural ou, desde antigamente, quando a Rua Duque de Caxias, alcatifada de relva e ornada por mangueiras centenárias, dominava majestosa, contornando magnificamente a principal entrada da cidade, chegando à Praça Getúlio Vargas, que era o mais frequentado espaço de convívio dos tefeenses.


A Praça Getúlio Vargas, nessa época, via-se cercada pelo Mercado Municipal, pelo Cine-Teatro São José, pelo Clube JET, pela Quadra de Esportes Monsenhor Barrat, pelo Salão

Paroquial e pelo Dorgan’s Bar. À noite, ficava quase todo o tempo cheia de crianças, jovens e adultos, mas dominava uma calmaria gostosa de cidade tranquila, até mesmo quando o silêncio reinante era quebrado pelos acordes perfeitos de um violão em serenata, empunhado com brilhantismo por experientes e conhecidos jovens seresteiros.


Essas imagens antigas de Tefé parecem ter ficado definitivamente na minha mente, congeladas, a espera de um comando. E, sempre que sinto saudades da minha infância, vejo-as nitidamente, com grande clareza. A Praça Getúlio Vargas da minha memória é a mesma da fotografia que vem estampada na capa do livro “O Semeador do Saber”, de autoria do conterrâneo José Silvestre do Nascimento e Souza, podendo-se notar as águas do lago de Tefé em estado avançado de enchente, insinuando querer abraçá-la. Sentados no barranco, seis meninos observam a cena. Estaria eu entre eles? Ou seria aquele menino que desce em direção ao mercado, acompanhado a distância por uma senhora que poderia ser a minha mãe? Minha imaginação transporta-me para dentro daquela fotografia. Sinceramente, hoje eu gostaria de estar ali, juntamente com a minha mãe querida, como menino, vestido em minha melhor roupa – bermuda de tergal azul e camisa jérsei verde-abacate que ganhei de papai, em 1964, em meu aniversário. Porém, como jamais poderei realizar esse sonho, devo contentar-me com essas doces lembranças... agradáveis lembranças...


Extremamente atento e cuidadoso com tudo, tenho guardado uma folha de papel ofício, já amarelada pelo decurso dos anos, que contém datilografadas três mensagens natalinas, uma delas subscrita pela Lanchonete Espírito Santo. Todas, tenho plena certeza, foram veiculadas através das ondas poderosíssimas da Rádio Educação Rural de Tefé, nas noites do mês de dezembro de 1978.


O texto da Espírito Santo, que se encontra em cercadura tipo “x-x-x-x-x-x-x”, ficou, assim, elaborado: “Retorna o Natal e, com ele, a certeza de que os nossos corações serão inundados de alegrias, sonhos e esperanças. Neste final de ano, quando

ouvimos e sentimos mais próximos as badaladas e o tilintar dos sinos que anunciam o nascimento do Menino Jesus, a Lanchonete Espírito Santo almeja aos seus fregueses e amigos Boas Festas, desejando-lhes, ainda, um ano de 1979 repleto de paz, de entendimento, de cooperação, de diálogo, no seu lar e no seu ambiente de trabalho. Feliz Natal!!! Próspero Ano Novo!!! Estes são os votos sinceros da Lanchonete Espírito Santo e da sua proprietária, Dona Leica.”


A Lanchonete Espírito Santo, propriedade da minha mãe, ficava à esquerda do portão central do Mercado Municipal, de frente para a Rua Duque de Caxias, que dava vista para o imponente Lago de Tefé. Da Espírito Santo, de manhãzinha, às cinco da madrugada, podia-se ouvir o murmurar das águas negras do lago, beijando as alvas areias da praia. E tantas manhãs, ficamos, minha mãe e eu, a observar a Estrela Dalva, um pontinho luminoso que se sobressai no firmamento, no outro lado do lago, na Vila de Nogueira, hoje pertencente ao Município de Alvarães. De vez em quando, sinalizava como um pisca-pisca e desaparecia, mas logo voltava à cena com refulgência.


Presenciamos, também, em várias ocasiões, o despontar e o sumir instantâneo de estrelas cadentes. Certa vez, um cometa esteve sob nossa mira por alguns dias. Podíamos vê-lo lindo, soberbo e caudaloso no céu de Tefé. De dia, com o sol radiante, todos avistávamos, ao longe, na margem oposta do lago, o brilho esfuziante do branco da igreja e de algumas casas da Vila. Em outras oportunidades, mamãe e eu testemunhamos, juntos, o aproximar de canoas de nogueirenses, que se deslocavam para Tefé, a fim de vender seus produtos agrícolas ou trocá-los por mercadorias. Ancoravam a estimados duzentos metros do mercado, na praia de areias alvíssimas que se unia, com envolvente ternura, à quietude do lago de águas límpidas, mas escuras.


Mãe de apenas um filho, Dona Leica empenhou-se, desde cedo, para que eu tivesse uma boa educação, com formação intelectual e moral de qualidade. Assim, em 1964, aos seis anos de idade, matriculou-me na Escola Eduardo Ribeiro, cuja

diretora era a professora Amazônia Azevedo de Queiroz. A entrada da escola dava-se pela Quintino Bocaiúva, de frente para um enorme cruzeiro de madeira e a cinquenta metros da nossa casa. A minha primeira professora chamava-se Esmeraldina Vieira. Um ano depois, atendendo sugestão da professora Virgilina Façanha Mendes, que estava como diretora da Escola São José, na Rua Floriano Peixoto, mamãe transferiu-me para esse educandário, tendo ali concluído o ensino primário, base da minha formação educacional, com o incentivo, apoio e ensinamentos das professoras Raimunda Balieiro, Arsênia Gomes, Lúcia Pessoa, Mildes de Azevedo Barros, Elisabeth Gama e Nair da Costa Castro, entre outras.


Em 1971, com a aprovação em exame de admissão, mamãe matriculou-me no Colégio Estadual de Tefé, na Rua Getúlio Vargas, onde obtive, em 1974, o certificado de conclusão da oitava série, o antigo curso ginasial. No dia da formatura, minha mãe esteve na Matriz de Santa Teresa, local em que se realizou a entrega dos certificados e, depois, juntamente com papai, no Humaitá Atlético Clube, palco das comemorações festivas dos formandos junto a familiares, amigos e demais convidados. No convite, muito simples, feito em papel cartolina marfim, podem ser verificados a programação, o nome dos mestres homenageados e a relação dos oitavanistas.


No ano de 1975, com o êxito que obtive no mine vestibular do Colégio Agrícola do Amazonas, para estudar em Manaus, sob o regime de internato, empenhou-se ela, minha mãe, na compra de todo o material necessário, para a admissão no referido estabelecimento de ensino amazonense. Embora tivesse sido uma decisão sábia e corajosa, não deixou de ser também muito dolorosa para mamãe, pois, sem alternativa melhor e menos torturante, haveria de ficar um tanto longe do seu amado filho. Mas o que fazer numa hora dessas? Sinceramente, não sei o que se passou na sua cabeça; suponho que tenha pensado apenas no bem que me fariam esses estudos mais elevados.


Passaram-se, então, três longos anos para que eu viesse a concluir o ensino médio. Em Tefé, durante todo esse tempo,

mamãe continuou trabalhando, trabalhando, e, quem sabe, trabalhando até um pouco mais, passando da conta, para poder manter os meus estudos na Capital.


E não foi diferente quando, em seguida, permaneci por mais três anos e meio em Manaus, estudando na Faculdade de Estudos Sociais da Universidade do Amazonas, onde colei grau em curso de nível superior, com o título de bacharel. Nesse período, mamãe também esteve presente em minha vida e, mais uma vez, financiou tudo: livros, cadernos, alimentação, vestimenta, calçados, transporte... As passagens de avião ou de barco, para que eu fosse visitá-la, na época das minhas férias escolares, ou, ainda, nos feriados mais prolongados, eram, do mesmo modo, pagos por ela e papai. E aconselhava-me: “Sua obrigação, meu filho, não vai além do que fazer o melhor por você mesmo e, especialmente, ser responsável em suas atitudes.”


Ao iniciar o mês de outubro de 1983, com o propósito de alimentar ainda mais o meu desejo de estar presente nos festejos em honra de Santa Teresa de Jesus, padroeira de Tefé, mamãe preocupou-se em enviar-me a programação da tradicional festa religiosa, que continua atraindo e reunindo milhares de romeiros, no mês de outubro. Entre os colaboradores da festa, podem ser notados a Lanchonete Espírito Santo e o Comércio Agá-Erre, que se encontram relacionados como noitários do dia 7, uma sexta-feira.


– Colares, meu amor, alertou-me Kátia, estamos à uma da tarde em ponto. Precisamos retornar ao programa.


Até o toca discos agradeceu o intervalo, pois, durante esse período, o toca fitas esteve em ação. O intervalo foi preenchido pelo grupo OS SUPER QUENTES que tocou, sem interrupção, músicas de dois de seus discos, os de volumes 4 e 5, produzidos pela CBS, em 1972. Registro que o disco correspondente ao volume 4 é composto por doze músicas: “I Love You Baby”, “Quero Voltar Pra Minha Terra”, “Férias de Verão”, “A Canção Mais Carinhosa”, “Eu Só Penso em Você”, “Um Gato no Azul”, “A Garota Que Me Faz Sonhar”, “Sonhei

Sonhei”, “E Não Me Dás Valor”, “Oh! Baby”, “Uma Vai, Outra Vem” e “Vou lhe Esquecer”. Quanto ao volume 5, compõe-se por doze músicas: “Soraya”, “Assim Seja”, “Não Tenho Dinheiro”, “Só Você Sabe o Que Eu Sinto”, “Oh, Oh Julia”, “Eu Te Amo”, “Itchy Koo Koo”, “Vou Buscar Meu Amor”, “Deixe-me”, “Vem Pra Mim”, “Contigo Querida” e “Eu Digo Adeus”.


Todos adorávamos OS SUPER QUENTES e suas músicas, especialmente as dos discos de volumes 4 e 5, o que, sem dúvida, segurou a grande audiência do programa e me fizeram viajar nas minhas recordações.


BIBLIOTECA RAIMUNDO COLARES RIBEIRO

Transcrito do livro A MÚSICA DO SEU CORAÇÃO, Capítulo 16, de Raimundo Colares Ribeiro.

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