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ANNE DE AVONLEA | LUCY MAUD MONTGOMERY

LIVROS & ESCRITORES

APENAS UM DIA FELIZ


– Afinal – disse Anne a Marilla, certa vez –, creio que os dias melhores e mais doces não são aqueles em que acontece algo muito esplêndido, maravilhoso e empolgante, mas, sim, aqueles que trazem os pequenos e simples prazeres, um após o outro, sem pressa, como pérolas soltando-se de um colar.


A vida em Green Gables era repleta de dias assim, pois as aventuras e desventuras de Anne, como as de outras pessoas, não ocorriam todas de uma vez; elas aconteciam ao longo do ano, com grandes intervalos de dias felizes e inócuos, repletos de trabalhos, sonhos, risadas e lições. Um dia desses ocorreu no final de agosto. Pela manhã, Anne e Diana levaram os animados gêmeos para um passeio até as dunas da lagoa, para buscar ervas aromáticas frescas e remar pela maré, sobre a qual o vento cantarolava uma antiga canção aprendida quando o mundo ainda era jovem.


À tarde, Anne foi até a antiga casa dos Irvings para visitar Paul. Ela encontrou-o deitado na margem gramada, ao lado do espesso bosque de primeiros que protegia a residência pelo lado norte, absorto em um livro de contos de fadas. Ele levantou-se radiante quando a viu.


– Ah, estou tão feliz que a senhorita tenha vindo, professora – disse ele, entusiasmado –, pois vovó não está. A senhorita vai ficar comigo para o chá, não ficará? É tão solitário tomar o chá sozinho. A senhorita entende, professora. Eu havia considerado seriamente em pedir à jovem Mary Joe para tomar chá comigo, mas achei que vovó não aprovaria. Ela diz que não devemos nos meter com os franceses. E, de qualquer modo, é difícil conversar com a jovem Mary Joe. Ela apenas ri e diz: “Bem, você ganha de todas as crianças que já conheci”. Não é o tipo de conversa de que eu gosto.


– É claro que ficarei para o chá! – disse Anne, alegremente. – Eu queria muito ser convidada! Minha boca sempre saliva por causa dos deliciosos biscoitos amanteigados de sua avó, desde a última vez em que tomei o chá aqui.


Paul pareceu muito sério.


– Se depender de mim, professora – disse ele, parado com as mãos nos bolsos, seu lindo rostinho repentinamente tomado pela solicitude –, você terá biscoitos amanteigados à vontade. Mas vai depender de Mary Joe. Ouvi vovó dizer, antes de sair, que ela não deveria me dar nenhum biscoito, pois são muito fortes para o estômago dos garotinhos. Mas talvez Mary Joe possa lhe oferecer alguns se eu prometer que não comerei nenhum. Vamos torcer pelo melhor. (...)


BIBLIOTECA RAIMUNDO COLARES RIBEIRO

Transcrito do livro ANNE DE AVONLEA, de Lucy Maud Montgomery, traduzido por Rafael Bonaldi, Ciranda Cultural, Jandira, São Paulo, 2020, páginas 172 e 173.

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