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RESILIÊNCIA - GINA MANJUA

há 6 horas
3 min de leitura

Capítulo 8

 

Se não perceber, pergunta

 

Nessa altura, abriu em Faro um supermercado grande e muito conhecido. Eu tinha 26 anos e havia várias vagas para mim. Só que, eu queria ter a certeza que conseguia fazer bem o meu trabalho, sem prejudicar ninguém.

Na verdade, fiquei insegura com o meu problema, mas tinha em mente que conseguia fazer e ser útil. Fui chamada para uma entrevista e já ia com a função que queria e a carga horária.

Queria trabalhar cinco horas diárias para poder dar assistência aos meus filhos.

A entrevista foi feita pela Sandra Lobato, e lembro-me como se fosse hoje. Disse que teria de fazer formação, falou sobre a empresa e que era tudo muito bom. Eu ouvia-a, e ia sentindo um peso no peito. Ainda não tinha chegado a minha vez de falar.

Depois perguntou-me qual a função que eu gostava, e que antes de responder que fosse sincera que era o passo mais importante. Eu olhava para ela e sentia segurança. Parecia-me uma pessoa muito responsável e justa.

"Aqui há várias áreas, mas todos trabalhamos para o mesmo. Detesto intrigas e conflitos e conversas, sobretudo quando o visado não se pode defender. Não é fácil lidar com muita gente, porque há ideias e personalidades diferentes. Ninguém está aqui para mudar ninguém, mas sim para nos ajustarmos uns aos outros, nos respeitarmos e, acima de tudo, cumprir os princípios que a empresa impõe. Só todos juntos é que conseguimos obter resultados. E agora fale-me de si".

"Estou pronta para começar algo novo, nunca trabalhei em um supermercado. Gostava de escolher a função de repositora de alhos, horário".

"É por causa dos seus filhos?"

E eu fui sincera: "Não. É um problema auditivo que tenho".

"Como assim? Estou a falar consigo e não reparo em nada. Tem uma pronúncia diferente, daí perguntei se era portuguesa".

Expliquei a minha história, porque escolhera o último horário das 19 à meia noite, que tinha medo de não me renovarem o contrato mais tarde, que conseguia cumprir, mas, se ficasse nervosa, ouvia pior e tinha medo de não ouvir os clientes... "E assim com a loja quase a fechar, fico mais descansada. Não posso prejudicar ninguém".

Ela interrompeu-me: "Desculpe, mas não vai, de maneira nenhuma, ficar nesse horário. Os seus filhos vão precisar de si quando saírem da escola, por isso o melhor horário para os poder acompanhar é o da manhã, das 8h às 13 h. Quanto ao seu problema, não peça desculpa. Aqui nós não discriminamos. Se a chamarem e não ouvir, chamam de novo. Se você não perceber, pergunta. Se não perceber de novo, pede para repetir ou chama outro colega".

Fiquei sem palavras. A minha deficiência não me excluiu, fiquei num horário perfeito, e podia acompanhar os meus filhos. Ela não tinha medo de que eu prejudicasse o serviço ou que desse mau nome à marca. Ela queria-me como eu era, no horário em que o supermercado estava cheio.

A minha chefe era a Teresa Ferreira e, tal como a Sandra, também não me discriminou. Pelo contrário, ensinou-me e acreditou nas minhas capacidades.

Com elas aprendi e cresci muito. Realizei funções que nunca pensei poder fazer na vida, fui subindo de cargo até chegar, antes do tempo, a operadora especializada, e depois operadora principal. Foi muito gratificante tudo o que consegui nesta empresa nos cinco anos em que a Teresa Ferreira foi minha chefe.

Entretanto com a vida organizada, retomei o sonho de finalizar o 12º ano. E concluí-o com sucesso. Foi uma das etapas em que fui mais feliz a nível profissional. Havia muito trabalho, mas era muito gratificante, e ter tirado o 12º foi realmente uma grande vitória para mim.

Estou na mesma empresa há 26 anos e só tenho a agradecer a toda a equipa que trabalha e trabalhou comigo. Eu costumo dizer que ali nasci de novo, fui reconhecida, fui e sou amada por todos. Sinto o quanto dei à empresa, e quanto a empresa me deu. Passei por várias secções, fiz várias formações, tive muita sorte com todos os chefes (depois da Teresa tive a Vera Encarnação que também foi incrível comigo e se preocupava sempre se eu ouvia bem e percebia tudo), eram pessoas dispostas a acreditar em mim. É realmente a empresa do meu coração.

 

Transcrito do livro RESILIÊNCIA, de Gina Manjua, Euedito. (www.euedito.com), 2025, páginas 52-54.

 

 
 
 

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